Angola - Guerra Colonial
Moç - Guerra Ultramar

Guerra Colonial
Site do autor Joaquim Coelho,
Combatente e repórter de guerra em
Angola, Moçambique e Vietname cujas imagens e textos foram publicados em
5 livros - dois vencedores de prémios.



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São muitos os combatentes esquecidos
e muitos os amortalhados sem dignidade,
desconforto dos que têm tempos perdidos
e não encontram o vigor da mocidade.

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Angola <> Moçambique
Testemunhos Directos
Por natureza, ninguém vai à guerra para ser herói.
A Guerra Colonial - Guerra do Ultramar -
marcou o futuro de uma geração de mais de um milhão
de homens simples que sofreram privações, angustias e dores;
além de deixar cerca de 10 mil Combatente mortos, 30 mil deficientes e mais de 110 mil
traumatizados profundos. Foram 14 anos de grandes transformações na sociedade
e que só quem a viveu consegue deixar legados para a história de Portugal.





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“À ESPERA DA ALVORADA...”
MAS HOUVE GUERRA COLONIAL?
Das guerras coloniais portuguesas há apenas uns murmúrios... sabe-se que existiram, porque a memória de muitos milhares de soldados não pode ser silenciada. Muitos dos caixões foram desembarcados às escondidas nas docas da Rocha do Conde de Óbidos e de Alcântara! Nem se chegou a saber se aqueles caixões continham os corpos que as autoridades presumiam entregar às famílias. Muitos ficaram na terra onde derramaram a última gota de sangue; e, em vão, deram o último grito de protesto contra a infâmia de que não havia guerra.
Ninguém se deve esquecer que após a viagem do Ministro do Ultramar, Professor Doutor Adriano Moreira, em 1961, as autoridades de Angola difundiram aos comandantes de unidades uma proibição oficiosa, em termos confidenciais, para que ninguém dissesse que havia guerra: “as tropas apenas estavam a recuperar os itinerários para melhor acolher as populações no norte de Angola”.
Mas ninguém poderá silenciar as muitas centenas de milhares de homens que sofreram e gemeram com as agruras das guerras no norte, e mais tarde, também no leste de Angola, no norte e centro de Moçambique e em grande parte do território da Guiné. Os testemunhos são tão evidentes que só um bando de loucos é que podia determinar tal monstruosidade censória. E o resultado dessa tragédia nacional, que foi a guerra, está aí... muitos milhares de mortos, deficientes e sofredores dos efeitos psicológicos, além do desgaste prematuro da juventude que a todos encolhe a vida.
Muitos passaram pela guerra como quem passa por um campo de milho a fugir às abelhas selvagens que se libertam das colmeias e vão dando umas ferroadas nos transeuntes desprevenidos, deixando muitos dos combatentes com alergias complicadas. Alguns sentiram a guerra como uma paixão que os transformaram em adoradores das virtudes e dos defeitos dos humanos, porque comungaram das mais díspares emoções que podem atingir o âmago da alma humana. A grande maioria dos que sofreram os efeitos do prolongado isolamento dentro do arame farpado, rodeados de árvores ou de capim cheios de nada, privados das mais elementares formas de vida racional, nunca souberam a verdadeira razão das missões que os levaram para os confins das matas e savanas inóspitas, onde sentiram o isolamento do mundo e sofreram tremendos sobressaltos.
Consciência do que era a realidade do colonialismo, muito poucos a sentiram, tal era a ignorância nacional... mas a África fascina os que nela têm penetrado, seja em que circunstância for. É inegável que os queixumes contra as transformações históricas e a perda de extraordinários bens materiais e emocionais incomodaram muitos daqueles que se julgaram donos e senhores em terras cobiçadas pelas grandes potências económicas que virão dominar o que nos resta, pelo que os incómodos da mudança são tremendos e deixam azedumes difíceis de digerir, especialmente nos usurpadores dos bens alheios, com excepção dos portugueses pacatos que se acomodaram naquelas terras como forma de progredir na vida. Esses também sofreram os seus reveses, porque acreditaram e promoveram bem-estar e fomentaram desenvolvimento sem olharem às mudanças do tempo.
Mas as guerras também foram um sustentáculo dos interesses estabelecidos. Enquanto aqueles amplos territórios serviram para viveiro dos degredados da Nação, ou para exploração sem regras humanas dos indígenas, do abastecimento desenfreado das companhias estrangeiras em matérias-primas, ninguém viu a evidência da África ignorada, nem houve governantes capazes de atender ao seu destino - a onda de países descolonizados nos anos cinquenta e sessenta. E, quando o Império se desmoronou, muitos perderam a lucidez da história e não entenderam a sabedoria dos tempos... e as incompreensões deixam mágoas e traumas que nem sempre facultam que se fale desapaixonadamente das guerras ultramarinas, no bom sentido da compreensão da história e dos feitos dos nossos antepassados.
Os lamentos dos “retornados” sobrepuseram-se à agonia dos combatentes traumatizados. Mas, enquanto uns tiveram os adequados apoios sociais e de integração, em muitos casos despudoradamente dispendiosos, os outros foram descartados do serviço militar sem qualquer tipo de apoio, logo abandonados à sua sorte e com um horizonte de vida sombrio pela frente, sem contarem que as sequelas e os traumas dos dias de angústia se poderiam prolongar e tornar a vida num inferno.
Lisboa, 18 de Julho de 1976
Joaquim Coelho





